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Não morra frustrado: a alegria por meio de projetos paralelos

19 19UTC JUNHO 19UTC 2017 by Luciano Andolini

Vivemos uma época na qual repercute-se para todos os lados o mantra “trabalhe com o que você ama”.

Vejo algumas pessoas tratando a possibilidade de se colocar a força de trabalho em favor de algo que se goste quase como uma bala de prata que garante felicidade eterna. Há até uma citação que atribuem ao Confúcio (e que eu duvido ser dele mesmo) que diz “Escolha um trabalho que você ama e não vai precisar trabalhar nenhum dia de sua vida”.

Vejo dois caminhos se repetindo.

  1. A pessoa consegue construir uma profissão ao redor de algum hobby ou paixão como escrita, tricô ou ilustração, só pra descobrir que independente de todo o amor que se nutria por aquela tarefa, ser obrigado a fazer algo diariamente transforma essa atividade em um trabalho qualquer, cheio de pressão para gerar dinheiro e sapos para engolir de clientes desaforados.
  2. Você trabalha com uma atividade que odeia e aí sim, o trabalho é só trabalho, chicoteando você todos os dias para sair da cama e garantir o salário do mês.

Claro, não existem só dois casos possíveis. Óbvio que existe gente que consegue ser mais ou menos feliz estimulando-se de diferentes formas para garantir o interesse pelo trabalho.

Mas, a menos que o seu trabalho seja abusivo, beire a escravidão ou seja algo realmente nocivo pra sociedade, isso você pode fazer também sem amar o que faz. É mais uma questão de postura, de investigação e curiosidade do que, propriamente da natureza do trabalho.

Em geral, olhamos com paixão para trabalhos que de alguma forma tendem a enaltecer nosso ego ou tragam alguma ilusão de prestígio, como a música ou, sei lá, poesia.

Mas raramente refletimos sobre a quem esse mantra serve, como ele é usado para nos tornar ainda mais escravos, dedicando nosso tempo para mover engrenagens que, no final, vão nos descartar como as ferramentas desgastadas que eventualmente nos tornamos.

Mas esse não é bem o meu ponto.

Ao invés de depositar no seu ganha-pão a obrigação de ser mais do que sua fonte de sustento e demandar que ele também preencha seu vazio existencial, você poderia trabalhar na exata coisa que faz e encontrar satisfação de outra forma, por outra via.

O que vim sugerir é que talvez você possa tentar uma rota alternativa.

Experimentar um certo distanciamento sobre sua vida profissional em prol do uso construtivo do seu próprio tempo, para efetivamente ser e fazer aquilo que se ama sem a pressão de transformar sua paixão em um negócio.

Por que *não* ter um projeto paralelo

A tentação é enorme de pensar em um projeto paralelo como mais uma atividade para preencher sua agenda e, no final do dia, você poder se gabar para alguém que está num turbilhão, cheio de coisas pra fazer e não tem tempo pra mais nada.

Também é muito fácil pensar nele como mais uma forma de sustento. De montar uma outra carreira e, talvez, sair do seu emprego que gera tanto sofrimento.

Eu entendo a ansiedade. Eu mesmo penso assim muitas vezes.

Sim, pode ser que consiga uma grana fazendo o que faz.

Mas a maior graça de ter um projeto que não precisa gerar lucro, nem tem que atender à demanda de um cliente ou chefe, é a liberdade total. Poder fazer o que quiser sem dar satisfação pra ninguém. É sentir-se contente por ter tirado do papel algo que sonhou. Felicidade pela mera criação, pura e simples.

Uma boa parcela do sofrimento que um emprego nos causa vem pela identificação pessoal que levamos para o trabalho. Assim, quando um chefe nos pede para fazer algo que não concordamos, isso torna-se um pequeno martírio cotidiano.

Dedicando uma parcela do seu tempo a um projeto além do seu trabalho do dia a dia você pode tirar um pouco do peso que ele tem. Afinal, você pode ir lá, prestar seu serviço, pagar suas contas e voltar para casa pra focar naquilo que realmente traz significado pra sua vida.

Comece pequeno

Há gente bem megalomaníaca. Falando por experiência própria, prefiro determinar escopos muito simples para meus projetos.

Meu site pessoal, por exemplo, é bem básico. Uma página frontal, duas ou três sessões e um formulário de contato.

Meu EP tem três músicas. Cada uma delas tem, no máximo cinco instrumentos, com linhas que eu mesmo sou capaz de tocar.

Quando eu praticava escrita diariamente, determinava dez minutos de prática. O mesmo para guitarra e para canto.

Se você tem um projeto, ao invés de pensar em algo gigantesco que possa colocar mil pré-requisitos que vão se transformar em obstáculos, pode valer a pena diminuir o escopo para ter uma entrega mais simples e viável.

Eu garanto que, com o tempo, quando começar a ver as coisas indo pro mundo e os frutos aparecerem, você vai me agradecer. 😉

Aceite que vai ser devagar

Quando eu comecei o processo de gravação do meu primeiro EP, achei que eu conseguiria finalizá-lo em um mês.

A realidade não poderia ter sido mais diferente. Seis meses depois, eu mal conseguia agendar sessões de estúdio ou reuniões com o meu amigo que seria o produtor.

Em algum momento, tive que tocar o projeto sozinho. E isso tornou tudo ainda mais lento. Eu tinha mil dificuldades que precisava superar para tirar o projeto do papel.

A lentidão me frustrou bastante, confesso, mas por sorte tive amigos ao meu lado que me incentivaram a continuar, apesar dos resultados pouco expressivos em termos de velocidade.

A palavra-chave é: rotina e previsibilidade

Quando percebi que não adiantava correr, eu criei um método.

Eu chegava em casa todos os dias e fazia pelo menos uma coisa.

Eu não tinha um cronograma para o final do projeto. Tinha uma lista de tarefas e essa missão: uma só tarefa por dia.

Muitas vezes, eu fazia bem mais do que uma tarefa. Eu começava, me animava e trabalhava no máximo duas horas. A ideia era que eu nunca me esgotasse, pra não perder a motivação para continuar no dia seguinte.

Mesmo quando eu estava mal, cansado, esgotado por um dia de trabalho especialmente ruim, eu fazia uma pequena coisa e ia dormir. Eu não precisava pensar muito, não consumia muita força de vontade decidindo os próximos passos ou com uma expectativa absurda.

Eu só tinha um gatilho claro: chegar do trabalho. Uma só tarefa. Um teto: duas horas de trabalho, no máximo.

Quando vi, a lista tinha acabado e meu EP estava pronto. Fiz o mesmo para o meu site e outros pequenos projetos que executei.

Ver que o projeto não parou, independente de ter avançado lentamente, é um fator bastante motivador.

Aprenda fazendo

Uma das principais vantagens: quando você faz algo, vai se deparar com o tamanho da sua ignorância.

Isso é maravilhoso!

É aqui que o seu crescimento se torna palpável. Você vai precisar estudar, pensar em alternativas, enfim, ser criativo.

Eu acho que, por si só, isso é uma recompensa. Mas sei que tem gente que enxerga as coisas em termos funcionais acima de tudo. Caso você seja uma dessas pessoas, posso dizer que, sim, esses aprendizados podem ser extremamente úteis na sua carreira, a qualquer momento. Afinal, aumenta suas habilidades, capacidade criativa e pode até virar parte do seu portfólio profissional.

Desista de ser bom

Sempre bato nessa tecla, mas nunca é demais.

Desista de ser bom. Faça.

Nada vai ser igual ao que você imaginou.

Esse texto, por exemplo, antes de sentar pra escrever pensei que ia ser outra coisa. Mas aqui estou, desenvolvendo o caminho que se apresentou.

Não pense em dinheiro, aproveite a liberdade

Nos meus projetos, eu sou o chefe.

A menos que eu tenha algum parceiro (o que também é bem legal), sou eu quem tomo as decisões. Não tenho clientes para agradar, não preciso dar satisfação de nada.

Seja lá o que eu ache que vai funcionar, eu posso fazer.

Na música, por exemplo, se eu quiser soltar um álbum instrumental, um disco de soul e outro de folk no mesmo ano, eu posso. Se ninguém gostar, pelo menos eu gostei de fazer.

Eu vejo muita gente preocupada se os seus esforços vão ser lucrativos. Elas pensam em modelos de negócios, como vão vender, campanhas de marketing enormes, projetos super ambiciosos, antes mesmo de identificar a profundidade da satisfação que podem usufruir a partir daquele pequeno projeto. No final, quando a realidade bate, o livro ou software não vende tanto e não se torna a porta de saída do seu emprego de merda, a frustração bate.

Não que seja errado planejar todas as pontas e fazer seu projeto de forma profissional. Com sorte, sim, ele pode render bem mais que umas horas de satisfação brincando com as suas descobertas. Eu também gosto de pensar tudo até o fim. Mas é bom baixar a bola com relação à expectativa pra não quebrar a cara e matar todo o potencial de satisfação da sua empreitada.

* * *

O meu projeto paralelo que vem rendendo mais felicidade é o EP De Volta Pra Casa que acabei de lançar.

Praticamente todo dia recebo mensagem de algum amigo ou amiga dizendo que está ouvindo em algum lugar. É muito gostoso.

Tem um tipo de felicidade em colocar algo no mundo sem grandes pretensões que não tem preço. Você sente energia fluindo dentro de você por estar dedicando seu esforço de maneira construtiva e, depois, acaba colhendo muito carinho por melhorar o dia de uma pessoa de alguma forma.

Além disso, você nunca sabe onde pode chegar. Há um ano eu não conseguia juntar uma banda nem que quisesse. Nesse momento, estou trabalhando em uma festa de lançamento com mais quatro parceiros e eles já se ofereceram para me ajudar na produção do meu próximo EP.

Sim, é bastante trabalho e esforço. Eu poderia ter visto muito mais filmes e séries, ter dado like em muito mais fotos no Facebook e Instagram. Mas garanto que não estaria escrevendo esse texto e transbordando satisfação como estou agora.

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