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Desista de ser bom

10 10UTC FEVEREIRO 10UTC 2016 by Luciano Andolini

Nota: no final do ano de 2015 o PapodeHomem lançou um percurso chamado “15 práticas para começar 2016 com o pé direito“, como uma forma de desafiar os leitores a se engajar em práticas positivas para o ano de 2016. Essa foi a minha contribuição, originalmente publicada por lá.

* * *
Se eu pudesse escolher um só insight que mudou todo meu ano, eu diria: desista de ser bom.

Não em um sentido de desistir de se aprimorar, de aperfeiçoar suas técnicas para fazer o que quer que você se proponha. Aliás, eu costumo defender exatamente o contrário: esforce-se ao máximo para fazer o que puder da melhor forma possível.

Mas, sabe como é, a autossabotagem se alimenta do perfeccionismo.
É fácil gostar de uma atividade que é simples de aprender. Aquelas que você pega e simplesmente se sai bem, sem muita explicação.

Se você consegue dar as primeiras pedaladas facilmente, você se sente feliz e vai andar de bicicleta. Mas se, por outro lado, toma uns tombos e machuca o joelho, você dificilmente vai sentir aquele mesmo prazer tentando outra vez. A vergonha, o medo e, principalmente, aquele desejo interno de ser bom costuma nos frear.

Seja começar uma praticar atividade física, se alimentar melhor, aprender uma arte marcial, tocar guitarra, cantar, escrever, surfar, andar de bicicleta ou de skate, a gente tem essa mania de desistir logo que falha das primeiras vezes.

“É, talvez eu não seja bom nisso mesmo.”

A gente engole a frustração e segue a vida. Só que mais tarde essa energia presa se transforma em um certo rancor… e inveja. Você vai ficando meio amargo consigo mesmo (e com os outros, por tabela).

Ainda lembro das primeiras vezes que tentei tocar guitarra. Eu me sentia absurdamente ridículo. Nunca me vi tão exposto. Eu era ruim pra cacete.

A única alternativa que eu tive para desenvolver minimamente essa habilidade foi me conformar com isso. Eu ainda seria péssimo por muito tempo. Eu ainda sou. E tudo bem.

Até hoje, quando alguém me pergunta, eu falo: aprender a tocar um instrumento é se familiarizar com a realidade de que você é um bosta.

É preciso aceitar, dialogar, e se sentir confortável ao ponto de não deixar essa percepção abalar a sua confiança.

Com o tempo, você percebe que, sim, você precisa ter um crivo mínimo, para não esculachar. Mas também sair da frente e permitir aos outros julgarem a sua habilidade.

Vejo isso operando constantemente, amigos escritores, videomakers, professores de ioga, consultores financeiros, músicos…

Comigo, esse insight culminou em voltar a me divertir tocando, em aceitar que vai ser assim, pelo menos por enquanto, mas que dá pra me aprimorar enquanto as coisas acontecem. E que não cabe a mim julgar o resultado de forma tão severa, sob o risco de nunca colocar nada em ação.

Esse texto mesmo, eu não teria escrito se não tivesse começado a olhar pra tarefa de uma forma mais leve. Até eu realmente escrevê-lo, minha vontade era de desistir.

Então, fica aqui meu testemunho e a sugestão de prática para 2016.

Inicie uma atividade criativa

Hoje mesmo, pense em algo que gostaria de criar e coloque a mão na massa. Vale tudo, mesmo aquelas atividades que às vezes a gente não considera criativas. Desenhe, pinte, escreva, cante, toque uma música, componha, cozinhe, dance, coloque-se em movimento.

E observe todas as minhocas que passam pela sua cabeça no instante em que você inicia a tal atividade e se vê falhando ou sendo miseravelmente ruim.

No final, é muito bom! Você é uma bosta, mas tudo bem. Depois de algum tempo, você vai vendo como há progressos, como é gostoso trabalhar em algo cuja expectativa não é muito alta e, assim, passa a se divertir mais com o processo do que com a ânsia de ser reconhecido como o bonzão da paróquia.

Quando conseguir provar um pouco do gostinho dessa sensação, me chama e vamos bater um papo. Aposto que você vai ter uns insights muito bons pra compartilhar.

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